Cassado por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, o ex-governador de Roraima, Antonio Denarium (Republicanos), vê na cunhada, Tânia Soares, ex-secretária de Estado do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), uma alternativa para se manter na vida pública e política como candidata ao Senado pelo União Brasil.
A estratégia, no entanto, provoca desgaste dentro do União Brasil, partido ao qual Tânia é filiada. Integrantes da direção estadual da legenda afirmam que a pré-candidatura ao Senado foi anunciada sem qualquer deliberação da executiva partidária e defendem outro nome para a disputa.
Nos bastidores políticos, a possibilidade de Tânia Soares substituir Denarium na corrida ao Senado já era discutida desde abril, quando a então secretária intensificou as aparições públicas ao lado do ex-governador. À época, a movimentação foi interpretada como um “plano B”, caso a inelegibilidade fosse confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que acabou ocorrendo.
Em entrevista concedida em maio, o próprio Antonio Denarium confirmou que Tânia Soares poderia disputar uma vaga ao Senado caso permanecesse impedido de concorrer, reforçando a interpretação de que a ex-secretária seria a representante política de seu grupo nas eleições de 2026.
Interferência e derrota
A interferência de Denarium não é inédita. Nas eleições de 2024, quando ainda era filiado ao Progressistas (PP), o então governador articulou o lançamento da deputada estadual Catarina Guerra como candidata à Prefeitura de Boa Vista. Embora filiada ao União Brasil, Catarina foi lançada com o apoio de Denarium, enquanto a legenda tinha como pré-candidato o então presidente estadual do partido, deputado federal Antonio Nicoletti. A articulação desencadeou uma disputa política e judicial dentro e fora da sigla, que culminou na derrota de Catarina Guerra para o prefeito Arthur Henrique.
Resistência no União Brasil
Apesar do apoio de Denarium, a iniciativa encontrou resistência na cúpula estadual do União Brasil.
Em entrevista à Folha BV, o presidente estadual da legenda, Edilson Damião, e o vice-presidente, deputado federal Pastor Diniz, afirmaram que nunca houve acordo para que Tânia Soares fosse lançada como pré-candidata ao Senado. Segundo eles, a única conversa existente tratava de uma eventual candidatura da ex-secretária à Câmara dos Deputados.
Pastor Diniz declarou que qualquer definição sobre candidaturas deve passar pela direção partidária e afirmou que a pré-candidatura ao Senado foi anunciada sem consulta ao partido.
Já Edilson Damião disse respeitar a decisão de Tânia Soares de colocar o nome à disposição da legenda, mas ressaltou que a definição oficial dos candidatos ocorrerá apenas durante as convenções partidárias.
Influência política mesmo fora das urnas
Com a confirmação da inelegibilidade até 2030, Antonio Denarium ficou impedido de disputar as eleições deste ano, inclusive uma vaga no Senado. A eventual candidatura da cunhada é interpretada nos bastidores como uma tentativa de preservar a influência política do ex-governador no cenário estadual e manter seu grupo representado em uma das principais disputas de 2026.
Entretanto, a resistência demonstrada pela direção do União Brasil evidencia que a estratégia ainda enfrenta obstáculos internos e dependerá das decisões das convenções partidárias e, caso persistam divergências na federação União Progressista, também da análise da direção nacional da legenda.

