A chegada de Arthur Henrique ao PL, ainda durante o mandato de prefeito de Boa Vista, foi apresentada como um movimento para transformar o partido em uma das principais forças políticas de Roraima. À época, a expectativa era ampliar a presença da legenda e construir uma chapa competitiva para as eleições de 2026.
Agora, porém, a estratégia adotada pelo Diretório Nacional na distribuição dos recursos eleitorais coloca esse projeto à prova. A prioridade financeira dada à candidatura de Gerlane Baccarin à Câmara dos Deputados contrasta com a situação enfrentada por outros nomes da própria legenda, que chegaram à reta final da campanha com valores consideravelmente menores ou sem recursos nacionais.
Gerlane recebeu R$ 2,5 milhões do Diretório Nacional do PL ainda no mês passado. Enquanto isso, parte dos candidatos da legenda enfrenta dificuldades para estruturar suas campanhas nas últimas semanas antes da votação.
A concentração financeira pode produzir um efeito contrário ao fortalecimento projetado pelo partido: ampliar a capacidade de campanha de uma candidatura enquanto limita a competitividade dos demais nomes da chapa e, consequentemente, as chances de o PL aumentar sua representação parlamentar em Roraima.
Nos bastidores, a prioridade dada a Gerlane é tratada por filiados ouvidos pelo O FATO como um sinal de desprestígio político a Arthur Henrique. O ex-prefeito lidera com ampla vantagem as pesquisas de intenção de voto para o Governo de Roraima, mas recebeu do Diretório Nacional os mesmos R$ 2,5 milhões destinados à candidata à Câmara.
Segundo políticos ouvidos pelo O FATO, a estratégia nacional pode enfraquecer a capacidade do partido de conquistar mais cadeiras tanto na Assembleia Legislativa de Roraima quanto na Câmara dos Deputados.
No início de setembro, apenas 11 candidatos do PL à Assembleia Legislativa haviam recebido recursos da direção nacional. Entre os que ainda aguardavam verba estavam, inclusive, candidatos que já exercem mandato.
Reta final aumenta impacto da falta de recursos
A distribuição dos recursos ganha ainda mais peso diante do momento da campanha.
Neste sábado, 12, faltam apenas 22 dias para o primeiro turno das eleições. Para candidatos que ainda aguardam recursos, cada dia representa menos tempo para contratar equipes, produzir material, ampliar a publicidade, realizar deslocamentos e intensificar as ações junto ao eleitorado.
Nas eleições proporcionais, o desempenho coletivo da chapa também influencia diretamente a quantidade de cadeiras que uma legenda pode conquistar. Quanto maior a competitividade do conjunto de candidatos, maiores são as possibilidades de ampliar a representação partidária.
Por isso, concentrar uma parcela expressiva dos recursos em poucos nomes enquanto outros enfrentam dificuldades para estruturar suas campanhas pode comprometer justamente o objetivo anunciado quando o PL iniciou seu processo de fortalecimento em Roraima.
PL pode chegar forte ao Governo e perder espaço no Legislativo
Arthur Henrique chega à reta final em situação diferente. Candidato ao Governo, lidera as pesquisas de intenção de voto e aparece como a principal aposta do PL para conquistar o Palácio Senador Hélio Campos.
Mas força eleitoral para o Executivo não significa, necessariamente, crescimento partidário no Legislativo.
Para se consolidar como uma potência política no estado, o PL precisa transformar votos também em cadeiras na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. Isso depende da competitividade de uma chapa que vai além de uma ou duas candidaturas consideradas prioritárias.
É nesse cenário que a concentração de recursos em Gerlane ganha consequências políticas mais amplas. O investimento aumenta a capacidade de campanha da candidata à Câmara, mas a falta ou a demora na liberação de recursos para outros integrantes da legenda pode reduzir as chances de o partido eleger uma bancada maior.
Estratégia coloca projeto do PL à prova
A distribuição dos recursos eleitorais é uma decisão partidária e deve obedecer aos critérios estabelecidos pela legislação. Politicamente, entretanto, os valores destinados a cada candidatura também revelam as prioridades estabelecidas pela direção da legenda.
A questão, a pouco mais de três semanas das eleições, é se a estratégia adotada pelo Diretório Nacional está alinhada ao projeto de fortalecimento anunciado para Roraima.
O PL chegou a 2026 com a expectativa de sair das urnas maior, conquistar o Governo e ampliar sua representação parlamentar. Enquanto Arthur Henrique lidera a disputa pelo Executivo, porém, candidatos da própria legenda entram nos últimos 22 dias da campanha com estruturas financeiras muito diferentes.
A prioridade dada a Gerlane pode ampliar a competitividade individual da candidata à Câmara. O risco político para o PL é que essa estratégia reduza a capacidade dos demais nomes da chapa e comprometa um projeto mais amplo: transformar a legenda na potência política em Roraima projetada quando Arthur Henrique ingressou no partido.

