O afastamento de Adail Pinheiro do comando da Prefeitura de Coari, determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) durante a Operação Dinastia do Lago, acrescentou um novo capítulo ao histórico judicial e policial do político amazonense, que há mais de duas décadas ocupa espaço na política do interior do estado.
A nova investigação foi deflagrada pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), na quarta-feira (16). Ao todo, foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari, além de medidas de afastamento de servidores públicos.
Adail está entre os alvos da investigação, assim como o filho, o deputado federal Adail Filho. As apurações envolvem suspeitas de fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e possível atuação de uma organização criminosa ligada a contratos da administração municipal.
Segundo a Polícia Federal, a investigação começou depois que aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie foram encontrados com três empresários que viajavam de Manaus para Brasília, em maio de 2025.
A partir da apreensão, os investigadores avançaram sobre movimentações financeiras e relações entre empresários e contratos públicos. A PF afirma ter encontrado indícios de uma possível atuação coordenada para direcionar licitações, desviar recursos e movimentar dinheiro destinado ao pagamento de vantagens indevidas e à ocultação da origem e dos destinatários dos valores.
Durante a Dinastia do Lago, foram apreendidos aproximadamente R$ 990,5 mil em espécie, além de US$ 10 mil e 1.255 euros. A operação também resultou no sequestro de 21 veículos.
As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam condenação. A defesa de Adail Pinheiro e Adail Filho afirmou que as medidas adotadas não significam reconhecimento de culpa e declarou que os dois não possuem relação com os fatos que deram origem ao procedimento.
Vorax colocou Coari no centro de investigação federal
O atual caso ocorre anos depois de outra grande investigação envolvendo a administração de Coari.
A Operação Vorax foi deflagrada pela Polícia Federal em 2008, após uma investigação iniciada em 2004. A apuração começou a partir de indícios de irregularidades em um convênio firmado entre a Prefeitura de Coari e a União para a construção de um aterro sanitário.
O caso avançou e revelou um esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos no município.
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), empresas registradas em nome de terceiros eram utilizadas para simular concorrência em licitações. A investigação apontou que integrantes do esquema conseguiam controlar o resultado dos certames e se apropriar de parte dos recursos públicos.
Em alguns contratos, produtos e serviços pagos pelo município sequer teriam sido entregues. Em outros, os valores eram superfaturados para permitir o desvio de parte do dinheiro.
Uma análise da CGU identificou prejuízo superior a R$ 3,1 milhões em recursos federais e outros R$ 3,8 milhões relacionados a receitas provenientes de royalties da exploração de petróleo.
Outra perícia apontou diferença de R$ 5,5 milhões entre valores retirados de contas municipais e os montantes apresentados na prestação de contas referente ao exercício de 2001, além de aplicação irregular de aproximadamente R$ 2,8 milhões provenientes de royalties.
Um dos episódios que mais chamaram atenção durante a Vorax ocorreu quando os investigadores encontraram quase R$ 7 milhões em dinheiro escondidos no forro de uma residência localizada em um conjunto habitacional construído pela Prefeitura de Coari.
A operação posteriormente resultou na condenação de 20 pessoas. Entre elas estavam empresários, servidores municipais e integrantes do núcleo apontado como responsável pelas fraudes.
O processo relacionado especificamente à participação de Adail Pinheiro teve tramitação separada em razão das regras de foro por prerrogativa de função quando ele voltou ao cargo de prefeito.
Investigação também alcançou crimes sexuais
As investigações realizadas naquele período também tiveram repercussões fora dos casos relacionados ao dinheiro público.
Interceptações telefônicas realizadas durante a apuração acabaram subsidiando investigações sobre exploração sexual de crianças e adolescentes em Coari.
Adail Pinheiro foi preso em 2014 e, naquele mesmo ano, condenado pela Justiça do Amazonas a 11 anos e dez meses de prisão em processo envolvendo crimes sexuais contra menores.
O caso teve diferentes desdobramentos judiciais nos anos seguintes, incluindo discussões sobre o cumprimento da pena e concessão de benefícios.
Retorno ao comando de Coari
Mesmo após anos de processos e disputas judiciais, Adail Pinheiro retornou à política eleitoral e voltou à Prefeitura de Coari após as eleições municipais de 2024.
Agora, novamente no exercício do cargo de prefeito, ele foi alcançado por outra investigação da Polícia Federal envolvendo justamente a administração municipal.
Diferentemente dos processos anteriores que já tiveram decisões judiciais, os fatos investigados na Operação Dinastia do Lago ainda estão em fase de apuração.
Com o afastamento determinado pelo STF, a investigação passa a analisar documentos, equipamentos eletrônicos e informações financeiras apreendidas durante as buscas para tentar identificar a origem, o caminho e os possíveis destinatários dos recursos sob suspeita.
Quase duas décadas depois da Operação Vorax, a Prefeitura de Coari volta, assim, ao centro de uma investigação federal sobre a aplicação de recursos públicos.

