InícioParáPará é um dos seis estados onde a Polícia mais mata, aponta...

Pará é um dos seis estados onde a Polícia mais mata, aponta anuário da Seguranca Pública

Mesmo com queda na violência letal geral, estado vê crescimento nas mortes causadas por policiais, refletindo padrão preocupante na Região Norte.

Publicado em

O Pará entrou em 2024 no ranking dos seis estados brasileiros com maior proporção de Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP) em relação ao total de Mortes Violentas Intencionais (MVI). O dado, que integra o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, reforça o alerta para o uso da força letal por agentes do Estado, especialmente na Região Norte, onde a violência se mantém em patamar elevado.

Embora o Pará tenha registrado queda de 7,3% nas MVIs em relação ao ano anterior — com uma taxa de 29,5 mortes por 100 mil habitantes —, o número de mortes causadas por policiais aumentou 12,5%, saltando de 48 para 54 casos em 2024. A taxa de MDIP atingiu 7,0 por 100 mil habitantes, colocando o estado entre os três mais letais nesse tipo de ocorrência, atrás apenas do Amapá (17,1) e da Bahia (10,5).

Em 2023, o Pará ainda figurava entre os estados com taxa intermediária de letalidade policial (10,1% a 20% das MVIs). Em 2024, o estado ultrapassou esse patamar e ingressou no grupo crítico de unidades federativas com mais de 20% das mortes violentas causadas por intervenção de agentes de segurança. A proporção de MDIP sobre o total de MVIs subiu de 19,6% para 23,7%, superando a média nacional de 14,1%, a mais alta da série histórica iniciada em 2014.

Essa mudança coloca o Pará ao lado de São Paulo, Bahia, Goiás, Sergipe e Amapá — estados com padrão de uso letal da força considerado acima da média. A coordenadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, alerta que índices acima de 10% já sugerem excesso. “Quando mais de 1 em cada 10 mortes violentas é causada pela polícia, já há indícios de uso abusivo da força estatal. Acima de 20%, isso se torna estrutural.”

A letalidade não está restrita às grandes cidades. O Pará concentra a segunda maior proporção de municípios com ocorrências de MDIP (63,9%), atrás apenas do Amapá (68,8%). Em municípios como Cametá e Abaetetuba, mais da metade dos homicídios registrados foram provocados por ações policiais — 51,9% e 51,2%, respectivamente. Esses dados revelam um fenômeno de interiorização da violência policial, geralmente associado à precarização das políticas públicas e à falta de controle externo da atividade policial.

Outro dado preocupante é o índice de policiais mortos em serviço. Em 2024, o Pará registrou 0,8 mortes de policiais por 1.000 agentes da ativa, uma das mais altas do Brasil. Só Tocantins e Rio de Janeiro apresentaram índices maiores (1,1). Apesar da gravidade, houve queda de 31,8% em relação a 2023, o que sinaliza algum avanço na autoproteção dos agentes, possivelmente ligada à adoção de coletes e protocolos de patrulhamento mais seguros.

Violência na Amazônia

A Região Norte continua como uma das mais violentas do país. Em 2024, a taxa média de MVI foi de 27,7 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da registrada no Sudeste (13,3). Essa violência está fortemente associada à atuação de facções criminosas, ao tráfico de drogas e às rotas transfronteiriças de entorpecentes, como a chamada “Rota do Solimões”, que cruza Amazonas, Pará e Maranhão rumo ao exterior.

Especialistas apontam que, na ausência do Estado com políticas sociais e presença institucional, o poder público tende a responder com o uso predominante da força, sem a devida responsabilização. A combinação entre criminalidade organizada, pobreza e ausência de fiscalização robusta cria o ambiente perfeito para o crescimento da letalidade policial.

Transparência e Controle: Um caminho longo

Apesar dos números alarmantes, o controle sobre a atuação policial segue deficiente. Em 2024, apenas 10 estados brasileiros tinham programas ativos de uso de câmeras corporais nos uniformes — e o Pará não estava entre eles. Segundo especialistas, a ausência desses dispositivos compromete a fiscalização da atividade policial e reduz a capacidade de responsabilização de abusos.

“A câmera corporal não é um mecanismo punitivo, mas de proteção — tanto do policial quanto do cidadão. É um instrumento de transparência, e sua ausência fortalece a cultura da impunidade,” ressalta o juiz de garantias André Nicolitt, especialista em segurança pública.

Além disso, o Pará também apresenta baixo índice de investigação e responsabilização de casos de letalidade policial, segundo dados do CNJ.

A reportagem do Portal O Fato entrou em contato com o Governo do Pará e aguarda posicionamento oficial sobre os dados de letalidade policial registrados no estado em 2024.

spot_img

Últimos Artigos

Vice-prefeita de Marituba é apontada como pivô de confusão em bar de Belém; veja!

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma confusão em um bar de...

Omar Aziz bate martelo e escolhe Alessandra Campelo como vice no Amazonas

O senador Omar Aziz definiu a composição da chapa para a disputa ao Governo...

Defensor Público Geral deixa cargo para disputar eleição em Roraima

Um dia antes do prazo legal, o Defensor Público Geral Oleno Matos anunciou que...

Seis secretarias e áreas do governo têm novos comandos no Tocantins

Seis mudanças no primeiro escalão marcaram a reconfiguração do governo do Tocantins nesta semana....

Mais como este

Vice-prefeita de Marituba é apontada como pivô de confusão em bar de Belém; veja!

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma confusão em um bar de...

Omar Aziz bate martelo e escolhe Alessandra Campelo como vice no Amazonas

O senador Omar Aziz definiu a composição da chapa para a disputa ao Governo...

Defensor Público Geral deixa cargo para disputar eleição em Roraima

Um dia antes do prazo legal, o Defensor Público Geral Oleno Matos anunciou que...