A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) indiciou o deputado distrital Hermeto (MDB) pelo crime de concussão, em investigação que apura um esquema de “rachadinha” no gabinete do parlamentar. Também foram indiciados o chefe de gabinete, Licérgio Oliveira de Souza, e a esposa do deputado, Keilla Alves de Almeida. O caso ganhou destaque nacional nesta quinta-feira, 9, após reportagem do Metrópoles.
De acordo com o Departamento de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Decor), as irregularidades teriam começado em janeiro de 2019 e envolviam o repasse obrigatório de parte dos salários de servidores comissionados da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). As remunerações eram pagas com recursos públicos, o que caracteriza o Estado como vítima do esquema, segundo os investigadores.
As apurações apontam que servidores eram coagidos a entregar parte dos vencimentos sob ameaça de exoneração ou rebaixamento funcional.
Procurado, Hermeto afirmou que o inquérito se baseia em denúncia apresentada por sua ex-esposa em 2019 e classificou o indiciamento como “estranho” por ocorrer meses antes das eleições. “Vou me defender no tribunal, porque não devo nada”, declarou.
Movimentações financeiras suspeitas
O Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf, anexado à investigação, revelou movimentação incompatível com a renda do chefe de gabinete. Entre 2018 e 2023, Licérgio movimentou R$ 1,6 milhão. Durante busca e apreensão na residência dele, a PCDF encontrou R$ 46,6 mil em dinheiro, além de cadernos de anotações e aparelhos eletrônicos.
A polícia identificou que, apenas em 2019, Licérgio recebeu 73 depósitos não identificados, que somaram R$ 132 mil. Parte significativa desses valores foi sacada logo em seguida, o que apontaria tentativa de ocultar a origem e o destino dos recursos.
O Coaf também identificou depósitos em nome do próprio deputado Hermeto, que recebeu R$ 100 mil em 13 e 20 de junho de 2020. Em 26 de agosto do mesmo ano, realizou saques que totalizaram R$ 148 mil.
Segundo o Decor, o conjunto de evidências demonstra um esquema estruturado: “O caso apresenta pluralidade de vítimas, habitualidade, operações suspeitas e beneficiários diretos e indiretos, configurando prática criminosa institucionalizada no gabinete”.
Conversas e repasses
Mensagens extraídas de celulares apreendidos reforçam a suspeita de cobrança sistemática. Em diálogo de 24 de maio de 2022, Licérgio pressiona Gilberto Rodrigues Costa Carvalho e Freire — marido de uma servidora comissionada — a realizar repasses mensais, mencionando ordem do “chefe”.
Gilberto relata que a esposa recebia cerca de R$ 4 mil líquidos, mas precisava transferir R$ 6 mil: “Então eu estou pagando dois mil reais para o Hermeto todo mês”, afirmou em conversa registrada no inquérito.
No mesmo dia, Gilberto transferiu R$ 5,5 mil para Keilla Alves de Almeida, esposa do parlamentar. Em seguida, ela confirmou o recebimento ao chefe de gabinete: “Obrigada, papai! Conferi agora. Fez R$ 5.500”.
Quatro servidores coagidos
A investigação identificou quatro servidores que eram obrigados a devolver parte dos salários. Em um dos casos, um comissionado que recebia R$ 11 mil entregava R$ 4 mil mensais, valor que, segundo ele, chegou a ser repassado diretamente ao deputado Hermeto.
A PCDF estima que, entre 2019 e 2022, ao menos R$ 52,9 mil foram efetivamente pagos no esquema. O valor não inclui cobranças feitas, mas não concretizadas — situação que, conforme os depoimentos, seria recorrente.


