A Polícia Civil de Roraima (PCRR), por meio da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), concluiu uma investigação que resultou no indiciamento do casal Wenderson Lima de Souza, que se apresentava como pastor evangélico, e Arielly Kamila Moraes de Souza, que atuava como pastora, pelos crimes de estupro de vulnerável, importunação sexual, fraude processual e outros delitos. A investigação também levou ao indiciamento de uma terceira envolvida por suposta destruição de provas.
Segundo a Polícia Civil, Wenderson Lima de Souza utilizava a posição de liderança religiosa para conquistar a confiança das vítimas, mantê-las sob influência e facilitar a prática dos crimes. As investigações apontam que Arielly Kamila Moraes de Souza participava da aproximação com as adolescentes e colaborava para a execução das condutas criminosas.
As investigações começaram após o registro de um boletim de ocorrência, em 23 de abril de 2026, feito por representantes de uma adolescente de 14 anos. A partir da denúncia, a delegada Kamilla Basto instaurou inquérito policial e iniciou as diligências, com apoio da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), por meio do Departamento de Inteligência (Deint).
Os trabalhos investigativos foram iniciados em 27 de abril e concluídos em 14 de junho. Durante a apuração, foram realizadas oitivas, análises de documentos, coleta de provas técnicas e outras diligências que permitiram identificar 11 vítimas, com idades entre 12 e 17 anos. Outras cinco pessoas que apresentavam indícios de terem sido vítimas optaram por não prestar depoimento.
Manipulação religiosa e silêncio das vítimas
De acordo com a investigação, o casal se valia da autoridade exercida na igreja para evitar suspeitas e impedir denúncias. Conforme a Polícia Civil, os investigados utilizavam argumentos religiosos para manter as adolescentes sob controle psicológico e, em alguns casos, ofereciam dinheiro em espécie, transferências via PIX e outras vantagens para garantir o silêncio das vítimas.
O inquérito também aponta que os fiéis temiam denunciar os líderes religiosos por receio de serem acusados de rebeldia ou de provocar divisão na igreja, o que poderia resultar em expulsão da comunidade religiosa, conforme regras previstas no estatuto da instituição.
Segundo a delegada Kamilla Basto, o ambiente em que os crimes teriam ocorrido tornou a investigação mais complexa.
“Estamos diante de um caso desafiador, especialmente pelo ambiente em que os crimes teriam sido praticados, valendo-se da fé e da vulnerabilidade espiritual das vítimas. O que tornou a investigação particularmente complexa foi o elevado grau de dissimulação dos investigados, que utilizavam justamente a confiança das vítimas como instrumento de dominação e silenciamento. Nenhum ambiente e nenhuma posição de autoridade estão acima da lei. É fundamental que as autoridades policiais atuem com firmeza para proteger as vítimas e garantir a justiça”, afirmou.
Tentativa de destruição de provas
As investigações também apontaram a participação de R.B.L.S., de 20 anos, na destruição de provas contidas no telefone celular de Wenderson Lima de Souza. Segundo a Polícia Civil, ela teria agido com a ajuda de uma adolescente e de uma das vítimas, a pedido do investigado.
Ainda conforme o inquérito, após a destruição do aparelho, Wenderson Lima de Souza teria orientado uma vítima a registrar um boletim de ocorrência informando falsamente o desaparecimento do celular, numa tentativa de ocultar a destruição das provas.
Por esses fatos, R.B.L.S. foi indiciada pelos crimes de fraude processual e corrupção de menores.
Crimes atribuídos
Com a conclusão do inquérito, Wenderson Lima de Souza foi indiciado pelos crimes de:
- estupro de vulnerável;
- importunação sexual;
- favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou pessoa vulnerável;
- registro não autorizado de intimidade sexual;
- fraude processual;
- falsidade ideológica.
Arielly Kamila Moraes de Souza foi indiciada por:
- estupro de vulnerável;
- importunação sexual;
- fraude processual.
R.B.L.S. foi indiciada pelos crimes de fraude processual e corrupção de menores.
Segundo a Polícia Civil, a investigação concluiu que não houve consentimento livre das vítimas, uma vez que os atos ocorreram em um contexto de manipulação psicológica, abuso da autoridade religiosa, chantagem e coerção, circunstâncias que afastam qualquer alegação de voluntariedade.
O inquérito foi encaminhado ao Poder Judiciário e ao Ministério Público de Roraima para as providências cabíveis. A delegada responsável pelo caso também representou pela prisão preventiva de Wenderson Lima de Souza e Arielly Kamila Moraes de Souza.

