O Governo de Roraima decretou situação de emergência por 180 dias diante do avanço da estiagem no Estado. A medida foi oficializada nesta quarta-feira (2) pelo governador Soldado Sampaio, que também determinou a criação de uma estrutura integrada para coordenar as ações de enfrentamento ao período seco de 2026 e 2027.
A decisão ocorre em meio à queda acentuada do nível dos rios, ao aumento dos focos de calor e aos prejuízos registrados na produção agrícola. Dados apresentados pelo Estado apontam perdas superiores a 30% em lavouras de milho e soja, enquanto o rio Branco chegou, em Boa Vista, a uma marca inferior ao menor nível anteriormente registrado para agosto.
Dois decretos foram assinados durante ato na sede do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR). Um deles reconhece oficialmente a emergência provocada pela estiagem, classificada como desastre de Nível II. O outro cria o Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027.
Segundo Sampaio, a antecipação das medidas considera projeções climáticas e informações apresentadas por órgãos estaduais e federais sobre a intensidade do período seco.
“Precisamos tomar algumas medidas emergenciais para fazer a devida prevenção e minimizar os danos causados pela estiagem. O setor produtivo já acumula perdas significativas, algo de 30% ou mais na produção de milho, soja e outros grãos. Também já percebemos nossos rios e igarapés baixando acima da média e identificamos focos de incêndio. Por isso, estamos tomando as devidas providências”, afirmou.
Rio Branco fica abaixo de marca histórica para agosto
O cenário hidrológico está entre os fatores que levaram à adoção das medidas. Levantamento do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), com informações de 27 de agosto, aponta redução significativa do nível dos rios em Roraima.
Na estação de Boa Vista, o rio Branco marcou 1,38 metro. O resultado ficou abaixo dos 1,39 metro que representavam a menor marca registrada para agosto e 70,3% abaixo da média histórica de 4,64 metros para o mês.
Em Caracaraí, o mesmo rio atingiu 2,05 metros. A média histórica de agosto na estação é de 5,50 metros, o que representa uma redução de 62,7%.
A queda dos níveis dos rios pode afetar o abastecimento, a navegação e atividades desenvolvidas por comunidades que dependem diretamente dos recursos hídricos.
O presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), Wagner Severo, afirmou que a escassez de água já demanda atuação conjunta dos órgãos.
“A partir desse decreto, todas as instituições que compõem o Comitê de Queimadas vão trabalhar de forma integrada. O período de estiagem já demonstra que estamos tendo impacto direto com a escassez hídrica. Por isso, há a necessidade de o Estado antecipar ações, como o apoio à perfuração de poços e a ampliação do acesso à água potável”, explicou.
Estado prevê perfuração de poços e reforço de brigadistas
Entre as providências previstas está o reforço das equipes responsáveis pelo enfrentamento aos incêndios. Atualmente, 157 brigadistas estão contratados e outros 47 deverão ser convocados. O planejamento prevê novas ampliações do efetivo conforme a necessidade nos municípios.
A situação do abastecimento de água também entrou no plano emergencial. Conforme o governo, a Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer) deverá adotar procedimentos para viabilizar a perfuração de poços em localidades afetadas pela redução da disponibilidade hídrica.
Sampaio informou ainda que determinou à Procuradoria-Geral do Estado (PGE) a adoção de medida judicial contra a União relacionada à perfuração de poços em comunidades indígenas.
“Em muitas cidades do interior já temos falta de água para o abastecimento urbano. É uma preocupação nossa. Também determinei que a Procuradoria-Geral do Estado entre com uma ação contra a União para que seja cumprida a decisão judicial já tomada pelo STF em relação à perfuração de poços nas comunidades indígenas”, declarou.
Agosto registra recorde de focos de calor
O período seco também é acompanhado pelo crescimento dos registros de focos de calor. Dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), contabilizaram 87 focos ativos em Roraima em agosto, considerando informações consolidadas até o dia 27.
O número supera os 78 registros contabilizados em agosto de 2023, até então a maior quantidade para o mês desde o início da série histórica, em 1998.
Em comparação com agosto de 2025, quando foram registrados 37 focos, houve aumento de 135%. O resultado de 2026 também está 335% acima da média histórica de 20 focos para agosto.
De acordo com o comandante do Corpo de Bombeiros de Roraima, coronel Anderson Carvalho de Matos, os preparativos para enfrentar o período mais crítico começaram antes da instalação formal do gabinete.
“Estamos trabalhando muito previamente, agora no mês de setembro. Ainda não havíamos iniciado uma operação tão cedo. Essas ações são fundamentais para que minimizemos os impactos da estiagem e de tudo que temos de previsto nos prognósticos climatológicos em relação aos impactos do El Niño”, afirmou.
A orientação aos produtores rurais é para que adotem medidas preventivas contra a propagação do fogo, principalmente com a abertura de aceiros para proteção de lavouras, residências, currais e cercas. O Corpo de Bombeiros também recomenda evitar o uso indiscriminado do fogo durante a estiagem.
Produtores relatam perdas acima de 30%
Os impactos da seca já alcançaram áreas destinadas à produção de grãos. Representantes do setor produtivo participaram das discussões que antecederam a decretação da emergência e relataram prejuízos em lavouras de soja e milho.
O diretor da Cooperativa Agropecuária de Roraima (Coopercarne), André Prado, afirmou que as perdas já ultrapassam 30% e poderão crescer caso as condições climáticas permaneçam desfavoráveis.
“As perdas já começaram a aparecer e já ultrapassaram os 30% na lavoura e na produção de milho e soja. Temos uma perspectiva de que as perdas irão aumentar, até porque o El Niño é um processo que vai se estender por um período”, afirmou.
O presidente da Aprosoja Roraima, Murilo Ferrari, relatou que a falta de chuvas em julho prejudicou as lavouras e que a preocupação agora também está concentrada no risco de incêndios.
“O Estado de Roraima nunca passou por um mês de julho tão seco e a nossa produção de soja e milho foi extremamente afetada. O futuro que precisamos pensar agora é combater o fogo, porque, se ele passar nessas lavouras que já foram prejudicadas pela seca, vai comprometer a produtividade de anos”, disse.
Gabinete reúne 19 órgãos estaduais
O Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027 será coordenado pela Casa Civil e pela Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPDC). A estrutura utilizará o Sistema de Comando de Incidentes (SCI) e terá integração com o Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional (Ciman).
Ao todo, 19 órgãos estaduais participarão das ações. Entre eles estão Corpo de Bombeiros, Femarh, Polícia Militar, Polícia Civil, Secretaria de Segurança Pública, Secretaria de Saúde, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação, Secretaria de Infraestrutura, Caer, Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Iater) e Agência de Defesa Agropecuária de Roraima (Aderr).
Também integram a estrutura Casa Militar, Segad, Secidades, Setrabes, Secom, Sepi, Selc e Codesaima.
O gabinete ficará responsável por organizar medidas de prevenção, preparação e resposta à estiagem, além das ações de recuperação das áreas eventualmente atingidas.
Emergência vale por seis meses
O decreto que reconhece a situação de emergência terá validade inicial de 180 dias. O período poderá ser prorrogado ou encerrado antecipadamente, dependendo da evolução das condições climáticas e das avaliações realizadas pela Defesa Civil.
Durante a vigência, órgãos estaduais poderão ser mobilizados para ações de monitoramento, assistência às populações afetadas, prevenção de incêndios, resposta a desastres e recuperação.
Em situações nas quais exista risco iminente à vida ou à integridade das pessoas, agentes de proteção e defesa civil também poderão entrar em imóveis para realizar socorro ou determinar a retirada dos ocupantes.
A decretação estadual ocorre após o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima estabelecer, em fevereiro deste ano, situação de emergência ambiental relacionada ao risco de incêndios florestais em Roraima para o período entre setembro de 2026 e abril de 2027.

