A Polícia Civil de Roraima (PCRR) prendeu sete pessoas investigadas pela morte de Cauã Vinícius Castro da Silva, de 21 anos, vítima de uma execução que, segundo as investigações, teria sido determinada durante um chamado “tribunal do crime” realizado por integrantes de uma organização criminosa.
As prisões ocorreram durante a Operação Castigare, deflagrada na quarta-feira (26) pela Delegacia-Geral de Homicídios (DGH) e encerrada na madrugada desta quinta-feira (27). A ação contou com apoio da Guarda Civil Municipal (GCM).
Ao todo, foram cumpridos 11 mandados de prisão e 15 de busca e apreensão, além de prisões em flagrante e apreensões de drogas. As diligências ocorreram nos bairros Jardim Olímpico, Cruviana, Laura Moreira, São Bento, Cinturão Verde e Pintolândia, em Boa Vista.
Os detalhes da investigação foram apresentados nesta quinta-feira durante coletiva na sede da Delegacia-Geral, com participação da delegada-geral Simone Arruda, da diretora do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), Míriam Di Manso, e do titular da DGH, João Evangelista.
Corpo de jovem foi encontrado carbonizado
A investigação começou em 31 de julho, quando o corpo de Cauã foi localizado carbonizado nas proximidades do chamado “fossão”, no bairro São Bento.
A partir da identificação da vítima, policiais passaram a cruzar informações, analisar imagens, monitorar suspeitos e pesquisar dados para reconstruir os acontecimentos que antecederam o homicídio.
Segundo o delegado João Evangelista, esse trabalho permitiu chegar aos possíveis envolvidos e fundamentar os pedidos de medidas judiciais posteriormente cumpridos na operação.
“A equipe passou a fazer o cruzamento de dados, monitoramento e análise de imagens. A partir desse trabalho, conseguimos identificar os envolvidos e chegar às medidas judiciais que foram cumpridas na operação”, afirmou.
Facção teria decidido morte durante videochamada
Um dos principais pontos revelados pela investigação é a maneira como a morte de Cauã teria sido decidida.
De acordo com a Polícia Civil, integrantes da organização criminosa participaram de uma reunião na Praça Germano Sampaio, na Zona Oeste de Boa Vista, e realizaram uma videochamada com membros da facção que estavam fora de Roraima.
Foi durante essa reunião, conforme a investigação, que o grupo teria discutido a situação de Cauã e determinado sua morte.
“A primeira reunião que conseguimos identificar ocorreu na Praça Germano Sampaio, na Zona Oeste de Boa Vista. Eles estavam reunidos e fizeram uma videochamada com integrantes da facção que estavam fora de Roraima. Foi nesse contexto que discutiram a situação da vítima e determinaram a sentença de morte”, explicou Evangelista.
Cauã teria sido sequestrado antes da execução
Após a decisão do grupo, Cauã teria sido sequestrado e levado ao bairro São Bento, onde acabou executado.
Na sequência, os envolvidos teriam ateado fogo no corpo numa tentativa de eliminar vestígios do homicídio.
“Depois dessa decisão, a vítima foi sequestrada e levada para o bairro São Bento, onde ocorreu a execução. Em seguida, os envolvidos atearam fogo no corpo, numa tentativa de destruir os vestígios do crime”, relatou o delegado.
A motivação investigada está relacionada a uma disputa entre facções criminosas. Conforme a apuração policial, Cauã teria pertencido anteriormente a uma dessas organizações e passado posteriormente a auxiliar um grupo rival.
Três mulheres e quatro homens foram presos
Entre os sete presos estão três mulheres, identificadas pelas iniciais K.T.V., de 35 anos; K.S.O., de 29; e P.C.S., de 39 anos.
Também foram presos C.B.M.S.M., de 25 anos; J.H.S.A., de 21; J.H.A.N., de 37; e R.M.R.O., de 29 anos.
Durante as buscas, um dos investigados, C.B.M.S.M., que já possuía mandado de prisão relacionado ao homicídio, também foi autuado em flagrante por tráfico de drogas. Segundo a polícia, foram apreendidas com ele uma quantidade de maconha e uma balança de precisão.
Com duas das mulheres presas também foram encontradas porções de maconha. Nesses casos, foram lavrados Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) por consumo pessoal.
Adolescente foi conduzido durante operação
Um adolescente de 17 anos também foi conduzido durante as diligências. Com ele, conforme a Polícia Civil, foram encontradas maconha e duas balanças de precisão.
A residência onde o adolescente estava tem importância para a investigação. Segundo a apuração, o imóvel teria sido utilizado pela organização criminosa para realizar um dos “julgamentos” relacionados à decisão de matar Cauã.
As circunstâncias envolvendo o adolescente seguem sob apuração.
Suspeito de participar de execução também teria virado alvo da facção
Outro elemento identificado durante a operação chamou a atenção dos investigadores. Um dos suspeitos de envolvimento na morte de Cauã também estaria sendo procurado pela própria organização criminosa.
Segundo a Polícia Civil, o homem teria conseguido escapar de outro “tribunal do crime”, desta vez realizado para decidir sobre a execução dele próprio.
Para João Evangelista, o episódio demonstra a dinâmica interna de violência dessas organizações.
“A mesma estrutura que determina a morte de uma pessoa também pode colocar outro integrante como alvo”, afirmou.
Polícia registra 63 homicídios em Roraima em 2026
Durante a apresentação da Operação Castigare, a DGH também divulgou números relacionados aos homicídios investigados no estado.
Conforme o balanço apresentado pela Polícia Civil, Roraima registrou 95 homicídios em 2024 e 104 em 2025. Em 2026, até o momento, foram contabilizados 63 casos.
A quantidade de medidas judiciais cumpridas pela unidade também aumentou. Em 2024, foram 16 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão. Em 2025, foram 34 prisões e 74 buscas. Até agosto deste ano, a DGH contabiliza 34 mandados de prisão e 54 de busca e apreensão.
Segundo a Polícia Civil, as investigações contam ainda com compartilhamento de informações entre diferentes unidades e órgãos de segurança, incluindo a Secretaria de Segurança Pública (Sesp), a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e núcleos de inteligência.
Investigação sobre morte de Cauã continua
Após o cumprimento das medidas, os sete investigados foram encaminhados à DGH para os procedimentos legais. Eles também passaram por exames no Instituto de Medicina Legal (IML) e foram apresentados em audiência de custódia.
A Polícia Civil informou que a investigação continuará para esclarecer integralmente o homicídio e concluir as diligências ainda pendentes.
O nome Operação Castigare faz referência ao contexto investigado. O termo remete a “castigo” e foi escolhido em alusão à punição imposta à vítima pelo suposto “tribunal do crime”, segundo a PCRR.

