Roraima já enfrenta os primeiros impactos do fenômeno El Niño e entrou em estado de atenção diante do aumento dos focos de calor, da redução do volume dos rios e dos riscos para o abastecimento de água e a produção agrícola.
Em julho, o estado registrou 40 focos de calor, o maior número para o mês desde o início da série histórica. Até esta quinta-feira (13), agosto já contabilizava 46 registros, número próximo ao observado em 2015, durante o último episódio de super El Niño.
Os dados foram apresentados pelo comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR), coronel Anderson de Carvalho, durante entrevista concedida a uma emissora de rádio.
Segundo o comandante, o cenário é considerado preocupante porque o estado passou do período chuvoso diretamente para a estiagem, sem a transição normalmente observada entre as duas estações.
Enquanto os órgãos estaduais ainda trabalham na desmobilização das ações realizadas durante o período de chuvas intensas, um gabinete de crise já foi instalado para coordenar as medidas de enfrentamento à seca.
Fenômeno pode atingir o pico no fim do ano
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Atualmente, os indicadores apontam temperaturas entre 1,8°C e 2°C acima da média, patamar próximo ao que caracteriza um super El Niño.
De acordo com projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fenômeno deverá se intensificar entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, período que coincide com o verão em Roraima.
O Boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com outras instituições federais, aponta 100% de probabilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027.
O documento também prevê o aumento dos incêndios florestais entre dezembro deste ano e abril do próximo ano, além da possibilidade de redução das chuvas em até 50 milímetros em algumas regiões do estado.
Agricultura pode registrar perdas de até 50%
Os impactos da estiagem já começaram a preocupar o setor produtivo.
Na última semana, representantes do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil, da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), da Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Roraima (Aprosoja) discutiram os efeitos da seca sobre a produção agrícola.
Segundo os dados apresentados pelos produtores, as perdas na produção de grãos podem chegar a 50%, com reflexos diretos sobre a pecuária e a economia do estado.
Diante desse cenário, o Governo de Roraima avalia a possibilidade de decretar situação de emergência a partir de setembro.
A medida poderá agilizar processos administrativos e ampliar o acesso dos produtores a linhas de financiamento específicas.
Rio Branco apresenta nível abaixo da média
Outro fator que preocupa as autoridades é a redução do nível do rio Branco.
Após atingir aproximadamente nove metros durante o período chuvoso, o principal rio do estado apresenta níveis considerados muito abaixo da média.
Segundo o Corpo de Bombeiros, a principal preocupação está relacionada ao abastecimento de água para a população, os animais e as atividades agrícolas.
Para minimizar os impactos da seca, o estado mantém contratos para a utilização de caminhões-pipa e trabalha na ampliação da estrutura disponível.
Além disso, poços artesianos instalados em regiões historicamente afetadas pela estiagem deverão reforçar o abastecimento, com o apoio da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer).
Maioria dos incêndios é provocada pela ação humana
O Corpo de Bombeiros informou que os planos de prevenção, contingência e combate aos incêndios florestais já estão concluídos e que equipes de brigadistas realizam ações preventivas em Boa Vista e em áreas rurais.
As autoridades também reforçaram o alerta para a participação da população na prevenção dos incêndios.
Segundo o comandante da corporação, o El Niño cria condições favoráveis para a propagação do fogo, mas a maioria dos incêndios registrados em Roraima tem origem na ação humana.
De acordo com o levantamento apresentado pelo CBMRR, 99% dos incêndios em áreas de vegetação no estado são provocados por atividades realizadas pela população.

