Os principais nomes da chapa governista nas eleições deste ano no Amazonas chegam à disputa carregando o peso de uma série de investigações, denúncias e controvérsias que marcaram a gestão estadual nos últimos anos. O ex-governador Wilson Lima (União Brasil), candidato ao Senado Federal, e o governador Roberto Cidade (Federação União Progressista), candidato à reeleição ao Governo do Amazonas, acumulam episódios de grande repercussão política e administrativa.
Wilson Lima governou o Amazonas durante a pandemia da Covid-19 e teve sua gestão nacionalmente associada ao colapso da saúde pública em Manaus, especialmente durante a crise do desabastecimento de oxigênio medicinal, em janeiro de 2021. O episódio provocou dezenas de mortes, levou à transferência de pacientes para outros estados e resultou em investigações conduzidas pela Polícia Federal, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
O então governador também foi um dos principais alvos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, instalada pelo Senado Federal, além de enfrentar diversos pedidos de impeachment apresentados à Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Nenhum deles, entretanto, resultou em seu afastamento definitivo.
Durante sua administração, a Polícia Federal deflagrou operações relacionadas a contratos emergenciais firmados durante a pandemia, especialmente envolvendo a área da saúde. As investigações apuraram suspeitas de irregularidades em contratações realizadas pelo governo estadual, embora não tenham resultado, até o momento, em condenação judicial definitiva contra Wilson Lima.
Contratos da família de Roberto Cidade
Já Roberto Cidade, que presidiu a Assembleia Legislativa durante boa parte da gestão Wilson Lima e atualmente ocupa o cargo de governador, também enfrenta questionamentos relacionados à atuação política e aos contratos públicos firmados por empresas pertencentes à sua família.
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo mostrou que a empresa Navegação Cidade, pertencente ao pai de Roberto Cidade, ampliou significativamente o volume de contratos firmados com o Governo do Amazonas durante a administração de Wilson Lima. Segundo a reportagem, os contratos passaram de R$ 8,1 milhões, em 2020, para R$ 61,2 milhões em 2023. Outra empresa ligada aos irmãos do então deputado também registrou crescimento, saltando de R$ 1,6 milhão para R$ 17,4 milhões no mesmo período.
Outros levantamentos publicados por veículos de comunicação apontam que o volume de contratos das empresas da família com o governo estadual ultrapassaria R$ 230 milhões durante a gestão Wilson Lima, havendo estimativas que superam R$ 325 milhões quando considerados contratos firmados em períodos posteriores.
A repercussão alimentou críticas da oposição, que passou a questionar um possível conflito de interesses entre a atuação de Roberto Cidade como presidente da Assembleia Legislativa — responsável pela fiscalização do Poder Executivo — e o aumento dos contratos públicos destinados às empresas de seus familiares.
Em resposta, Roberto Cidade afirmou que deixou a administração das empresas em 2018, antes de assumir mandato parlamentar, sustentando que não possui participação na gestão dos negócios. Segundo sua assessoria, as empresas prestam serviços ao Estado desde 2011 e todas as contratações ocorreram por meio de processos licitatórios e pregões eletrônicos. O Governo do Amazonas também informou, à época, que os contratos seguiram os procedimentos previstos na legislação.
Aliança política
Além dos contratos familiares, Roberto Cidade também foi alvo de críticas pela condução da Assembleia Legislativa durante o período em que presidiu a Casa. Parlamentares da oposição afirmavam que o Legislativo exercia fiscalização limitada sobre o Executivo, especialmente durante a pandemia, quando diversas denúncias envolvendo contratos públicos chegaram ao conhecimento dos órgãos de controle.
Já no exercício do Governo do Estado, Cidade também enfrentou desgaste político por medidas como alterações na cobrança do IPVA para determinados veículos e pela repercussão de uma viagem internacional à Grécia, explorada por adversários durante o período pré-eleitoral.
Histórico influencia disputa
Agora candidatos aos dois principais cargos em disputa no Amazonas — Wilson Lima ao Senado e Roberto Cidade ao Governo do Estado —, ambos levam para a campanha eleitoral um histórico marcado por episódios que continuam sendo utilizados por adversários no debate político.
Embora tenham sido alvo de investigações, operações policiais, representações e críticas de órgãos de controle e da oposição, nenhum dos dois possui condenação judicial definitiva relacionada aos fatos mencionados, e ambos sustentam que suas atuações ocorreram dentro da legalidade, rejeitando as acusações feitas ao longo dos últimos anos.

