O senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou, nesta quarta-feira (28), uma carta na qual se apresenta como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar de ter sido derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). O documento foi divulgado após o parlamentar deixar o país e chegar aos Estados Unidos acompanhado da família.
Na manifestação, Flávio contesta o resultado da votação, faz acusações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e agradece aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pelo apoio recebido durante sua saída do Brasil.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, declarou o senador no início do documento.
A carta foi divulgada por aliados de Flávio que vivem nos Estados Unidos, entre eles o comentarista político Paulo Figueiredo.
Flávio acusa fraude eleitoral sem apresentar provas
No documento, o senador afirma que houve irregularidades no segundo turno e questiona a decisão que prorrogou o horário de votação.
Flávio atribui ao ministro Cristiano Zanin, do STF, a responsabilidade por uma decisão que, segundo ele, teria favorecido Lula na apuração. O parlamentar também questiona o crescimento da votação do presidente entre o primeiro e o segundo turno.
As acusações de fraude apresentadas na carta não foram acompanhadas de provas.
O senador defende a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin, embora o resultado oficial da eleição tenha confirmado a vitória do atual presidente.
Senador agradece a Trump e Milei após deixar o Brasil
Flávio Bolsonaro também agradeceu aos governos argentino e norte-americano pelo apoio recebido durante sua viagem.
O senador destacou o acolhimento nos Estados Unidos e elogiou Donald Trump, a quem atribuiu a defesa da liberdade de expressão.
A manifestação ocorreu depois de Flávio atravessar a fronteira brasileira com a Argentina, na terça-feira (27), e seguir para os Estados Unidos em uma aeronave particular, acompanhado da esposa e das duas filhas.
A viagem aconteceu apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes que proibia o senador de deixar o Brasil e exigia a entrega de seus passaportes comum e diplomático.
Flávio nega fuga e acusa Moraes de perseguição
Na carta, o parlamentar rejeita a classificação de sua saída do Brasil como fuga e afirma que decidiu viajar para preservar sua liberdade e a segurança da família.
Flávio também acusa Alexandre de Moraes de perseguição política e relaciona as medidas judiciais adotadas contra ele às investigações envolvendo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O senador sustenta que não existe mandado de prisão contra ele e afirma que a apreensão de seus passaportes faria parte de uma tentativa de impedir sua atuação política.
A Polícia Federal, por sua vez, informou que investiga as circunstâncias da saída do parlamentar do país. A corporação esclareceu que restrições relacionadas a documentos de viagem não caracterizam, isoladamente, a condição de foragido.
Oposição será comandada dos Estados Unidos, diz senador
Flávio Bolsonaro anunciou que pretende organizar e liderar a oposição ao governo Lula a partir do território norte-americano.
No documento, o senador menciona parlamentares e governadores aliados e faz referência a Rogério Marinho, apontado por ele como seu candidato à presidência do Senado.
O parlamentar afirma que continuará se manifestando sobre a situação política brasileira e promete apresentar, nos próximos dias, uma estratégia de mobilização de seus apoiadores.
A carta também menciona personagens históricos e lideranças políticas que atuaram fora de seus países, entre eles Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e opositores do governo venezuelano.
Apesar de ter sido derrotado nas urnas, Flávio reafirma no documento que considera sua candidatura vencedora e insiste em questionar a legitimidade do resultado eleitoral.
A declaração foi publicada três dias depois da reeleição de Lula e um dia após o senador deixar o Brasil, contrariando a determinação judicial que restringia sua saída do território nacional.
Leia carta na íntegra:
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.
Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema.
Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.
Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.
Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.
À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.
E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.
Que Deus abençoe o Brasil.

