O Instituto de Previdência do Estado de Roraima (IPER) virou centro de polêmica na última semana. No meio da disputa, volta à tona o nome do deputado federal Zé Haroldo Cathedral. Qual é, afinal, a ligação do parlamentar com o instituto?
A resposta está na história recente do IPER. Antes de chegar à Câmara dos Deputados, José Haroldo Figueiredo Campos presidiu o instituto. Seu nome foi aprovado em sabatina na Assembleia Legislativa em 2019. Ele assumiu a autarquia ainda sob os efeitos da maior crise de sua história. Entre 2015 e 2018, contribuições descontadas dos contracheques dos servidores deixaram de ser repassadas ao IPER.
Foi nesse cenário que Zé Haroldo comandou o IPER, de dezembro de 2018 a janeiro de 2022. Com os repasses regularizados e o pagamento de mais de R$ 140 milhões em débitos atrasados pelo Estado, o patrimônio do instituto dobrou. Ao sair, ele deixou o IPER com cerca de R$ 4 bilhões, o que reforçou a segurança da aposentadoria de servidores e pensionistas.
Em 2022, ele deixou o cargo para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. A trajetória de crescimento continuou, sob a gestão de uma equipe técnica em previdência, com Rafael Alencar assumindo a presidência. Em março de 2026, a carteira do IPER superou R$ 8 bilhões, o maior volume já registrado pela previdência estadual.
O cenário mudou em 2026. Com a renúncia de Antonio Denarium (Republicanos) e a cassação de Edilson Damião (União), o governador interino Soldado Sampaio (Republicanos) assumiu o cargo e usou o poder para trocar o comando do instituto. Maria José Almeida da Silva, que já foi diretora-geral do Ministério Público de Contas no mesmo período em que o deputado estadual Renato Silva era chefe de gabinete do MPC, foi nomeada presidente no lugar de Rafael Alencar, que era o diretor de Investimentos e Arrecadação na gestão de Zé Haroldo Cathedral.
Em 6 de outubro, dois dias depois de Sampaio perder a eleição, o governo enviou à Assembleia, em regime de urgência, o Projeto de Lei Complementar nº 10/2026. O texto criava mandatos fixos para a cúpula do IPER. O presidente ficaria até dezembro de 2031 e os diretores até 2029, sem possibilidade de exoneração imotivada. Ou seja, a direção nomeada por um governo de saída atravessaria quase todo o mandato do governador eleito, sob a justificativa de que um governador não deveria interferir na gestão do instituto, prática que o próprio Sampaio contrariou ao assumir interinamente o Governo de Roraima.
O projeto também retirava o Tribunal de Contas do Estado do Conselho Fiscal e do Comitê de Investimentos, justamente os órgãos que fiscalizam as contas e as aplicações do dinheiro dos servidores.
As críticas vieram de dentro do próprio sistema previdenciário. O presidente do Conselho Estadual de Previdência, Leandro Almeida, afirmou que a proposta nem sequer passou pelo colegiado antes de chegar à Assembleia. Segundo ele, nenhum prazo legal justificava a urgência. Leandro também apontou que o texto retirava do conselho a previsão de auditar as contas do instituto. Sobre o diretor de Investimentos passar a presidir o comitê que analisa os próprios investimentos, resumiu: “É como se você estivesse fazendo a gestão e, ao mesmo tempo, fiscalizando”. Para ele, proteger os recursos previdenciários exige ouvir os maiores interessados: os servidores ativos e aposentados.
Diante da pressão do deputado Zé Haroldo junto à imprensa e ao Judiciário, o governo retirou o projeto da Assembleia em 8 de outubro, mas avisou que ele pode voltar após ajustes.
O que parece uma briga pelo poder esconde algo maior: o patrimônio de mais de R$ 8 bilhões que garante a aposentadoria de milhares de roraimenses. Esse patrimônio foi reconstruído a partir da gestão de Zé Haroldo, depois de anos em que o dinheiro dos servidores sequer chegava ao instituto. Defender o IPER hoje é impedir que ele volte a ser tratado como peça de disputa política.
Por isso, a população precisa conhecer todos os fatos. O projeto saiu de pauta, mas não foi arquivado. Enquanto existir a possibilidade de blindar dirigentes e afastar fiscais, a gestão responsável que tirou o IPER do fundo do poço continua em risco. Quem já viu o dinheiro dos aposentados desaparecer sabe que vigilância não é exagero, e sim necessidade.

