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“Paraquedista” do Rio com “missão de Deus” para salvar Roraima não consegue sequer levar campanha às ruas

Hélio Lopes, que adotou o nome Hélio Bolsonaro para disputar o Senado, não aparece nas principais agendas eleitorais do PL e se limita a orar em frente ao Palácio do Governo de Roraima

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O deputado federal pelo Rio de Janeiro Hélio Lopes (PL), que transferiu o domicílio eleitoral para Roraima e adotou o nome Hélio Bolsonaro para disputar uma vaga no Senado, chegou ao estado cercado por um discurso de missão política e religiosa, mas não emplaca campanha nas ruas. No início da campanha, afirmou que Deus o havia enviado a Roraima após “tocar no coração” do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Passadas quase três semanas desde o início oficial da corrida eleitoral, no entanto, a grandiosidade do discurso contrasta com o que se vê da candidatura nas ruas. Hélio praticamente não participa das principais mobilizações eleitorais do PL e mantém uma única agenda (orar em frente ao Palácio do Governo), enquanto seus próprios correligionários intensificam caminhadas, reuniões e visitas aos municípios.

Até os registros públicos mais recorrentes da candidatura seguem um padrão diferente de uma campanha eleitoral tradicional: Hélio e um pequeno (minúsculo) grupo de apoiadores se reúnem no Centro Cívico de Boa Vista para realizar orações.

A estreia da candidatura, em 16 de agosto, reuniu cerca de 30 pessoas. Dois dias depois, uma reportagem que retornou ao local encontrou um grupo ainda menor, formado por aproximadamente dez apoiadores.

Na ocasião do primeiro ato, Hélio afirmou que sua chegada a Roraima estaria relacionada a uma missão espiritual e à decisão de Jair Bolsonaro de indicá-lo para disputar o Senado pelo estado.

“Deus me mandou para cá, eu acho que ele tocou no coração do Bolsonaro”, declarou.

Do RJ, quer vaga de Roraima

Hélio construiu sua carreira eleitoral no Rio de Janeiro, estado pelo qual foi eleito deputado federal em 2018 e reeleito em 2022.

Sem trajetória política anterior em Roraima, o parlamentar transferiu seu domicílio eleitoral para o estado apenas em março deste ano, meses antes da eleição. A mudança ocorreu por articulação direta do grupo político de Jair Bolsonaro.

O próprio Hélio já declarou que recebeu do ex-presidente a missão de disputar uma das duas vagas roraimenses no Senado. Em Roraima, voltou ainda a utilizar eleitoralmente o sobrenome “Bolsonaro”, apesar de não possuir parentesco com o ex-presidente, mas o uso do nome Bolsonaro foi vetado pela Justiça Eleitoral.

A chegada de um deputado eleito pelo Rio para disputar uma das cadeiras destinadas a Roraima provocou resistência inclusive dentro do próprio PL local. Antes da confirmação da candidatura, integrantes da legenda questionaram a ausência de vínculos políticos do parlamentar com o estado.

Mesmo assim, a direção partidária confirmou Hélio na disputa.

Hélio não acompanha Arthur 

A baixa presença de Hélio nas ruas fica ainda mais evidente quando comparada à movimentação eleitoral do próprio PL.

Candidato do partido ao Governo de Roraima e líder das pesquisas eleitorais, Arthur Henrique tem percorrido municípios, comunidades e bairros, participado de caminhadas, visitas de porta em porta e reuniões com moradores.

As agendas também têm reunido candidatos e lideranças políticas da coligação.

Quem aparece frequentemente ao lado de Arthur é Nicoletti, também candidato ao Senado pelo PL.

Nicoletti tem acompanhado atividades no interior e buscado associar diretamente sua candidatura ao projeto eleitoral de Arthur. Em manifestações públicas, inclusive, tem apresentado os dois como parceiros para uma eventual atuação conjunta entre Governo do Estado e Senado.

Hélio, apesar de disputar exatamente o mesmo cargo, pelo mesmo partido, não aparece com a mesma frequência ao lado do candidato a governador nem nas principais mobilizações da legenda pelo estado.

Na prática, enquanto Nicoletti aproveita a estrutura e a presença territorial da campanha de Arthur, Hélio segue em uma espécie de campanha paralela, marcada principalmente pelos atos religiosos no Centro Cívico.

Apenas vigiar e orar?

A baixa exposição já começa a chamar atenção também na imprensa de Roraima.

Nesta semana, veículos locais registraram que Hélio vem recusando pedidos de entrevistas e mantendo sua movimentação pública concentrada nos círculos de oração realizados no Centro Cívico.

A própria campanha anunciou que a intenção seria realizar diariamente, às 22h, encontros para “clamar por Roraima”.

No lançamento, Hélio também falou em “guerra espiritual” e pediu que os apoiadores rezassem pelos candidatos e pelo país.

Embora tenha afirmado inicialmente que pretendia percorrer os municípios de Roraima durante os 45 dias de campanha, as viagens e grandes mobilizações eleitorais não se tornaram, até agora, a marca pública de sua candidatura.

Nicoletti tem mais intenção de votos que Hélio

A diferença entre os dois candidatos do PL também aparece nas pesquisas eleitorais.

No levantamento mais recente do Instituto Census, realizado entre os dias 24 e 30 de agosto, Nicoletti alcançou 23,53% na soma das intenções de primeiro e segundo votos para o Senado.

Hélio Bolsonaro apareceu com apenas 7,25%.

Isso significa que, dentro do próprio PL, Nicoletti registra mais de três vezes o percentual alcançado pelo candidato enviado do Rio de Janeiro.

Teresa Surita lidera o levantamento com 27,95%, seguida por Nicoletti, com 23,53%; Chico Rodrigues, com 21,22%; Helena da Asatur, com 20,05%; e somente depois aparece Hélio, com 7,25%.

A pesquisa ouviu 1.500 eleitores entre 24 e 30 de agosto, tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número RR-08323/2026.

Mais dinheiro 

A diferença entre as duas candidaturas não está apenas nas ruas e nas pesquisas.

Levantamento publicado pelo O FATO nesta quinta-feira (3), com base nos dados declarados ao sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostrou uma diferença de R$ 2,6 milhões entre os recursos destinados pela direção nacional do PL às duas campanhas.

Enquanto Nicoletti recebeu R$ 3,1 milhões do partido, Hélio Lopes recebeu R$ 500 mil.

O valor repassado a Nicoletti é 6,2 vezes maior que o destinado a Hélio, apesar de os dois serem candidatos do mesmo partido e disputarem as mesmas duas vagas disponíveis para Roraima no Senado.

Sobrenome 

Hélio desembarcou na eleição roraimense apostando justamente na proximidade com Jair Bolsonaro como seu principal ativo político.

Além de adotar “Hélio Bolsonaro” como nome eleitoral, o deputado tem sido apresentado pelos filhos do ex-presidente como integrante do círculo de confiança da família. Eduardo Bolsonaro costuma chamá-lo de “06”, em referência à numeração utilizada pelos filhos de Jair Bolsonaro.

Até agora, porém, o sobrenome político, o apoio da família Bolsonaro e o discurso religioso não foram suficientes para colocar Hélio entre os principais nomes da disputa pelo Senado em Roraima.

Para quem chegou ao estado dizendo ter recebido uma missão de Deus, a campanha de Hélio Bolsonaro, até agora, mal chegou às ruas de Roraima.

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