Um trabalhador de 65 anos foi resgatado em condições análogas à escravidão durante uma operação realizada em uma propriedade rural localizada no interior da Estação Ecológica Terra do Meio, unidade de conservação federal situada em Altamira, no sudoeste do Pará. O caso foi confirmado neste domingo (19) pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT).
Segundo a fiscalização, o homem vivia há oito anos completamente isolado na propriedade, sem acesso à água potável, alimentação adequada, atendimento médico ou condições mínimas de dignidade. A operação de resgate ocorreu no último dia 14 de julho e contou com a participação do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Federal (PF).
As investigações tiveram origem em denúncias registradas durante inspeções anteriores realizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pelo Ministério Público do Trabalho.
Trabalho solitário e isolamento
De acordo com a Auditoria-Fiscal do Trabalho, desde novembro de 2018 o trabalhador era o único responsável pela manutenção da propriedade. Entre as atividades desempenhadas estavam a vigilância da fazenda, conservação da pista de pouso, manejo de animais e cultivo de pequenas lavouras destinadas à própria subsistência.
A fiscalização constatou que ele permanecia completamente isolado em uma área cercada por floresta, sem acesso regular a serviços públicos, comunicação, assistência médica ou qualquer suporte básico.
O acesso ao imóvel era possível apenas por via aérea ou fluvial. Para chegar ao local, a equipe utilizou um helicóptero da Polícia Federal, em um voo de aproximadamente duas horas a partir de Altamira.
Água imprópria e alimentação insuficiente
Entre as principais irregularidades encontradas estava a ausência de água potável. Segundo o relatório da fiscalização, o trabalhador consumia água retirada diretamente do rio Pardo, armazenada em recipientes reutilizados de óleo lubrificante. Antes de beber, aguardava apenas a decantação da lama, mas a água permanecia turva e inadequada para consumo.
A alimentação também era extremamente limitada. Conforme relato do trabalhador, o empregador enviava esporadicamente arroz, feijão, óleo, sal e alguns temperos.
O idoso informou que passou anos sem consumir carne bovina ou de frango. Para complementar a alimentação, pescava piranhas no rio e utilizava apenas a cabeça dos peixes para consumo, destinando o restante aos porcos criados na propriedade.
Em um período de 2025, segundo o relato, ele permaneceu cerca de três meses sem receber mantimentos e sobreviveu exclusivamente de abóboras cultivadas na propriedade e de piranhas preparadas apenas com óleo e sal.
Mesmo diante da situação, afirmou que chegou a cogitar abandonar o trabalho, mas desistiu por receio de perder seus direitos trabalhistas.
Moradia em condições degradantes
A fiscalização também identificou graves violações nas condições de moradia.
O trabalhador vivia sozinho em um barraco de madeira com paredes cheias de frestas, telhado com goteiras, piso parcialmente de terra batida e cama coberta por detritos, dividindo espaço com lixo acumulado.
A cozinha era uma estrutura improvisada, aberta em duas laterais, exposta à entrada de animais e vetores. Os alimentos permaneciam armazenados sobre uma mesa suja, ao lado de ferramentas de trabalho, enquanto o preparo das refeições era feito em um fogão a lenha coberto por fuligem.
Segundo a equipe de fiscalização, porcos circulavam livremente sob a residência, enquanto cobras apareciam com frequência. O trabalhador relatou ter sido picado duas vezes por jararacas.
Ele também afirmou que passava parte das noites acordado para espantar morcegos que atacavam os animais da propriedade.
O banheiro da residência estava inutilizado havia aproximadamente quatro anos, obrigando o trabalhador a fazer as necessidades fisiológicas no mato. Para tomar banho, utilizava o rio, onde informou ter sido ferroado por arraias em duas ocasiões.
A iluminação da casa era fornecida apenas por duas lâmpadas alimentadas por uma pequena placa solar. O quarto onde dormia sequer possuía iluminação.
Anos sem contato com familiares
Outro aspecto destacado pela fiscalização foi o longo período de isolamento humano.
Segundo os auditores, os mantimentos chegavam apenas ocasionalmente e o trabalhador chegou a passar até três anos sem manter contato com familiares, devido à inexistência de sinal de telefonia ou internet na região.
Em um episódio relatado à equipe, ele contou que precisou caminhar aproximadamente 27 quilômetros por mata fechada durante cerca de um dia e meio para conseguir atendimento médico após sofrer fortes dores nos rins.
Situação de vulnerabilidade
Além das condições de trabalho e moradia, a força-tarefa identificou que o trabalhador vive em situação de extrema vulnerabilidade social. Aos 65 anos, ele é analfabeto, possui deficiência auditiva severa e apresenta problemas de visão.
Após o resgate, os órgãos providenciaram a emissão de uma nova carteira de identidade, inscrição no CPF, encaminhamento para atendimento médico e o início dos procedimentos para solicitação de benefício previdenciário ou assistencial.
Também foram fornecidos roupas, alimentos, produtos de higiene pessoal e um telefone celular, permitindo que o homem restabelecesse contato com familiares residentes no Maranhão, em Goiás e em São Félix do Xingu (PA), município onde permanecerá após o resgate.
Durante a operação, a Auditoria-Fiscal do Trabalho informou que foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), prevendo o pagamento das verbas rescisórias e indenização por danos morais ao trabalhador. Além disso, foram emitidas as guias para acesso ao seguro-desemprego e adotadas outras medidas para assegurar os direitos trabalhistas e sociais da vítima.

