Cinco anos após o colapso do oxigênio em Manaus, o epidemiologista da Fiocruz Amazonas, Jesem Orellana, afirmou que a eleição de Wilson Lima ao Senado criaria um cenário de impunidade ao permitir que o chefe do Executivo permaneça sob foro privilegiado.
A declaração foi feita em entrevista à Rádio Mix na quarta-feira (14), mesmo dia em que o Ministério Público Federal voltou a cobrar indenização e assistência psicossocial a vítimas e familiares daquele episódio.
Segundo o MPF, documentos da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) mostraram que a falta de oxigênio foi comunicada antecipadamente a autoridades federais e estaduais. O órgão busca o julgamento definitivo da ação que responsabiliza União, Estado e Município e prevê reparação financeira.
Orellana afirmou que a responsabilização depende do fim da proteção jurídica que acompanha cargos eletivos de alto escalão. “Para que haja responsabilização, ele não pode ter foro, e para não ter foro ele não pode ser eleito senador. Eu diria que o mínimo que poderia acontecer é que ele não fosse eleito. Porque se ele for eleito ele vai ter foro e isso não é interessante para a sociedade”, argumentou.
O pesquisador classificou o episódio de janeiro de 2021 como “o pior colapso registrado na história da pandemia de Covid-19 no planeta” e afirmou que “não houve falta de experiência, não houve falta de conhecimento e não houve falta de aviso”.
Ele também criticou o comportamento institucional após o colapso. “Por que nós tivemos uma CPI da Covid em Brasília e nunca a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas [Aleam] fez uma CPI? É uma falha dos órgãos de controle. O silêncio perdura até hoje”, protestou.
Colapso era evitável
Orellana afirmou que a crise era considerada evitável sob a ótica epidemiológica, sobretudo porque coincidiu com o período de maior circulação de síndromes respiratórias no Amazonas. Segundo ele, o aumento de casos entre novembro e janeiro é sazonal, previsível e historicamente conhecido na região.
Para o epidemiologista, o fator decisivo para o colapso não foi apenas o aumento da demanda hospitalar, mas a incapacidade de sustentar a cadeia logística de oxigênio e de formar equipes com perfil adequado para o atendimento de pacientes com insuficiência respiratória. Ele citou a abertura de leitos improvisados sem infraestrutura e a falta de vigilância laboratorial ativa durante a transição entre a primeira e a segunda onda.
O pesquisador também mencionou o atraso na detecção da variante P.1 e as transferências de pacientes para outros estados. Segundo ele, o fato de cidades receptoras não terem entrado em colapso foi um indicativo da assimetria entre demanda e capacidade instalada no Amazonas.
“Nós criamos condições ideais para transformar Manaus num verdadeiro laboratório a céu aberto. Era uma combinação de negligência sanitária, ausência de contingência e uma população mal orientada. Isso potencializou a tragédia”, pontuou.
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